Chamada – dossiê nº 61 – Arquivos do texto teatral: processos de criação e recepção
Arquivos do texto teatral:
processos de criação e recepção
O teatro é uma arte do instante e do lugar e, eventualmente, da itinerância. Intrinsecamente ligado a um espaço e a um tempo específicos (hic et nunc), o teatro não pode ser separado da sua aura. Assim, ele pode estabelecer as mais variadas relações com os espaços e percursos cênicos, que podem ser ressignificados pela encenação.
Ao contrário do texto escrito, passível de ser fixado em versões mais ou menos autorizadas, a representação deve ser constantemente renovada. Assim, as peças pertencentes à tradição teatral podem ser repetidamente reencenadas, segundo releituras e reinterpretações determinadas pelos seus respectivos contextos históricos, sociais, políticos e cênicos.
As representações podem estabelecer diferentes relações com outras técnicas artísticas, quando são destinadas a integrar formas teatrais híbridas, como peças radiofônicas, peças para televisão, peças acompanhadas de dança, de música ou mesmo de ritualização. A própria participação do público na encenação pode adquirir formas variadas.
Os rastros deixados pelas variadas encenações de uma peça teatral podem envolver gravações, imprensa, escrita literária, blog, vídeo, coleções de amadores e de instituições. Ainda que possam ser gravadas (arquivos sonoros e imagéticos) ou transmitidas ao vivo, as peças jamais podem ser inteiramente submetidas à lógica da reprodutibilidade técnica — especialmente, quanto à sua recepção, que varia conforme o público e a técnica de transmissão da peça teatral.
Os processos colaborativos de criação de uma montagem teatral podem incluir ou não um texto teatral. Os textos teatrais não precisam conter, necessariamente, diálogos, podendo reduzir-se a rubricas indicativas de ações (inclusive “atos sem palavras”), mímicas, gestos ou poses para os atores e as personagens, o que nos aproxima da pantomima, do Butho japonês, do teatro de sombras, do teatro de máscaras, dentre outros. Por um lado, nem mesmo o corpo das personagens precisa ser mobilizado, podendo ser substituído pela sua “representação” por bonecos, como ocorre no caso do teatro de marionetes. Por outro lado, somente os movimentos do corpo podem ser “representados”, como nos balés, sejam improvisados ou regidos por um argumento escrito.
Por um lado, a improvisação pode ser explorada de modo generalizado, prescindindo até mesmo de um texto teatral. Por outro, os diferentes processos de criação durante a montagem de uma peça podem influir na própria versão impressa de um texto, como ocorreu em La cantatrice chauve (1950) de Eugène Ionesco.
Embora possam ser publicados para serem lidos sob a forma de um texto literário, os textos teatrais permanecem, com frequência, inéditos, sob a forma de folhas avulsas (em versões datiloscritas, manuscritas ou impressas) com ou sem anotações (as quais podem ser feitas por diferentes agentes, como tradutores, adaptadores, diretores, atores, iluminadores etc.).
As versões de um texto em diferentes línguas acrescentam uma nova camada às diferentes encenações, que podem ser feitas com base em retraduções ou em línguas estrangeiras, com a presença ou não de legendas sob as mais variadas formas (projetadas sobre as materialidades do cenário e do espaço ou circunscritas a suportes projetivos). As hibridizações por meio de línguas estrangeiras também constituem uma forma de plurilinguismo própria ao texto teatral.
Além de suas modalidades textuais, os arquivos teatrais também podem incluir maquetes ou desenhos de cenário, croquis de figurino, partituras musicais, coreografias para dança, esquemas de iluminação cênica, fotos de montagem ou gravações audiovisuais.
No que tange à adaptação do texto para cenas específicas, ainda é possível pensar no tipo de público, no local da representação ou mesmo nos recursos de realização da representação. Que tipos de transposições são feitas de uma peça de teatro para sua encenação em Libras? Como se aclimatam sotaques, atores, espaços cênicos de determinados textos para públicos múltiplos (adultos, PCDs, crianças etc.)? Que registros, procedimentos e métodos podem ser propostos para adaptações dos textos? Há limites, falhas, acertos? O que os arquivos nos dizem sobre a história das adaptações dos textos teatrais?
Este dossiê da revista Manuscrítica deseja promover novas formas de compreensão e circulação dos processos de criação e recepção de montagens dramáticas, explorando arquivos teatrais da perspectiva das áreas abaixo.
- Crítica Genética
- Crítica Textual
- Crítica Teatral
- Filologia
- Etnografia
- Escrita Teatral
- Estudos da Performance
- Estudos da Tradução
- Estudos da Adaptação
- Teoria do Teatro
- História do Teatro
- Estudos de Poética e Estética Teatral
- Arquivo
- Texto Teatral
- Montagem, performance e representação
- Improvisação
- Reinterpretações e retraduções
A Manuscrítica – Revista de Crítica Genética recebe contribuições em português, espanhol, francês e inglês, até 15 de dezembro de 2026.
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